terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Doença, dor e sofrimento

Eu tinha 16 anos quando entrei na faculdade de medicina. O ano era 1985 e por causa daquele vestibular em Londrina acabei tendo que conviver diuturnamente com o sofrimento, a doença e a morte desde então.
Não há nada mais acachapante para quem tem alguma inclinação para a espiritualidade ou para uma reflexão existencial do que esse contato íntimo com as vicissitudes humanas. Somente talvez a convivência com flagelos maiores, que ultrapassam o âmbito do indivíduo e sua família, pode ser mais gritante do que a vida dentro de um hospital. Estou pensando nas guerras, na fome que assola as populações africanas, nos campos de refugiados, nos guetos do nazismo e em coisas odiosas como o apartheid. Para essas não tenho grandeza de espírito necessária. Admiro quem dedica sua vida ao combate direto, in loco, a esses males.
De qualquer modo, a percepção imediata do sofrimento dos outros funciona como um balde de água fria sobre qualquer sonho de mundo feliz que um adolescente, como eu era ao percorrer pela primeira vez os corredores da sala de anatomia, possa alimentar. Apesar disso, entre optar por uma atitude fria e cínica diante da dor ou procurar desenvolver algum nível de contato com o sujeito que sofre; acabei escolhendo o segundo caminho.
Depois de tanto tempo debruçado sobre a literatura médica, conclui que por mais que estude sempre fica algo faltando. No máximo, quando alcanço o estado da arte em alguma moléstia específica, o que acontece é que compartilho a ignorância dos maiores cientistas do mundo. No quesito resolução de sofrimento, a medicina deixa ainda muito a desejar.
Por incrível que pareça, também não há resposta satisfatória na religião. Criam-se justificativas, promessas e apoio espiritual por meio de crenças em compensações posteriores, mas o sofrimento do aqui e agora permanece. Se houvesse um exorcismo realmente eficaz, por padre, pastor ou ministro - algo que realmente extirpasse a doença, os hospitais estariam com seus dias contados. Do mesmo modo, não há atos mágicos, manipulação de Chi ou meditação que repare algo concreto como um fígado cirrótico. Se é falta de merecimento, havemos de perguntar o que merecem então os doentes.
Ciência e religião podem nos ensinar a encontrar saúde no corpo, na mente e no espírito, mas apenas ANTES da patologia se apresentar. Certamente há curas milagrosas reinvidicadas pelas duas artes, mas são assim, milagres em condição de exceção, como são todos os milagres.
No final das contas, fazendo tudo ao alcance dos conhecimentos disponíveis oriundos de qualquer lado, o que sobra diante de nós é a dor e o sofrimento do ser humano vivo e físico, como nós mesmos. E para isso só há um remédio, aquele que está justamente no plano humano da existência. Para esse sofrimento, a cura é a compaixão, a solidariedade, a empatia possível apenas pelo contato caloroso de alguém que se identifique realmente com o outro.
É verdade que os médicos carregam sobre os ombros o peso da responsabilidade do diagnóstico correto, da prescrição inequívoca e da cirurgia precisa. Até mesmo nos cabe a função de dizer que chegou a hora de parar e deixar a vida atingir seu fim irrevogável. Mas penso que o médico(incluindo a mim mesmo) ainda está distante do nível de humanidade necessário para o tratamento do sofrimento. Vejo, por exemplo, que não teria o desapego de enfermeiras ou fisioterapeutas que lidam diariamente com as excreções normais e patológicas, dando banho, trocando ou aspirando os pacientes.
A doença é, certamente, um negócio para os profissionais da saúde, mas alguns acrescentam de si a compaixão que entregam graciosamente e então demonstram seu valor como pessoas. São poucos, mesmo porque tal dedicação é dura, dolorosa em si e até incompatível com a luta pela sobrevivência e com a pressa, sua filha dileta.
A espiritualidade e a inquisição interior dos motivos da vida e seus percalços são suportes fundamentais para organizarmos uma postura própria diante dos problemas. O conhecimento de tecnologias científicas e espirituais são ferramentas a serem adquiridas para o trabalho. Uma vez feito isso, é hora de partir para o campo real da batalha diária e procurar, sinceramente, fazer o melhor para o outro.

3 comentários:

Helinha disse...

Oi!!

Te seguindo aqui também... quer dizer, seguindo seu blog!!

Como professora, já tendo trabalhado em escolas em regiões muito carentes e na entrada de uma favela, convivi d perto com muito sofrimento também... não extamente de doença (embora isso também existisse...), mas principalmente de falta de perspectivas...

Acho que, com o tempo, vamos nos assombrando menos com as coisas que vemos... mas de modo algum ficamos insensíveis...

Especialmente em profissionais de saúde, que nos atendem em momentos muito difíceis para nós, é fundamental esse cuidado, essa compaixão aliada ao profissionalismo...

Beijos!!

^^

Rita de Cássia Corroul disse...

Caro Roger,
Por isso nos completamos.
Creio ser essa uma das maiores benesses humanas:conviver e ter a possibilidade ao interagir, principalmente para um mesmo fim,de estarmos sendo todos úteis,necessários e essenciais,seja num embate de ampitudes catastróficas,seja numa fase de sofrimento inimaginável ou num momento de profunda introspecção num universo solitário e particular.
Precisamos de todos!
Por mais abrangentes que pudermos ser,que procurarmos nos desenvolver nessa abrangência ou que sejamos donos de uma desenvoltura nata fazendo grandiosidades como nada fosse,ainda assim,precisamos de todos.
Muitas vezes,em situações inesperadas,para o paciente e sua família,quando o mesmo convive em um núcleo familiar, como nas previstas como é o caso do exercício medicina,percebemos o quanto somos sós na essência da palavra, e diante do que nos é delegado temos que acelerar nas providêcias (médico,família,paciente)cada qual em sua específica função.
Passado o primeiro impacto -ousaria dizer que em tudo na vida - temos que atravessar a ponte,seguir,realizar.E neste ponto,mesmo cada qual em sua função,já não estamos sós...E... precisamos de todos!
Nos deparamos com as dificulddes de cada um - incluindo as nossas,é claro - mas é preciso seguir.
Lembro-me das luzes e das presenças espirituais,preparando o campo antes da chegada dos meus amados ao quarto de hospital.
Lembro-me das mãos dos médicos segurando as papeletas,exames,diagnósticos,falando-me do processo,do estágio,das providências... e da provavel ineficácia entre todas as possibilidades... do olhar de apoio forte ainda que com o sentimento tocado.
Lembro-me dos atendentes que trocavam,limpavam e cuidavam de tudo com uma destreza sem igual.
Lembro-me das equipes de limpeza que entre os afazeres importantes de sua função,ainda tinham uma palavra,um gesto ou um olhar que fosse para se juntar ao nosso numa ligação tão rápida quanto acolhedora.
Lembro-me dos anjos de branco transitando rapidamente pelos corredores e entre quartos.Pareciam nem ter vida própria tal era o modo de dedicar-se ao seu próximo,do alívio na chegada de cada um,do olhar que fala a quem acompanha seu parente em sofrimento encerrando o ciclo.
Lembro-me de perceber,mesmo que com toda a discrição, a troca de andar de alguns componentes da enfermagem,que não aguentavam depois de tanta luta assistir o final da batalha...
Para tantas lembranças,foi preciso estar atenta a importância de cada um...ainda que num momento de dor!
Para ter toda essa importância a observar,foi preciso que cada um desse o seu máximo de um modo que julgamos não poder...
Mas podemos.Podemos muito.Podemos tudo o que estiver em nosso ser complexo,abrangente e atuante.
Ainda assim sempre... PRECISAMOS DE TODOS!
A vida me ensinou que é nos momentos insustentáveis que sutilizamos as percepções e que todas elas,por mais difíceis que sejam formam laços importantes,dos quais jamais desejaremos nos desvencilhar,dada a importância de um processo de vida real e legítimo em sua complexidade.
A vida me ensinou que viver e morrer tem o mesmo grau de importância e o que difere vida e morte é justamente o possível sofrimento que atinge a todos pela dor e a ausência física do outro a nossa volta.
Acima de tudo a vida me ensinou que tanto a vida quanto a morte,só as possuimos de fato quando vida significar exatamente o desprendimento da matéria se comparada a grandiosidade do espírito, e é imprescindível que seja em liberdade para que tenha consistência de SER!
Façamos cada qual a parte que nos cabe.Para o todo,isto é tudo.
Obrigada por dividir seus registros,seus "pensares",suas experiências...
Rita Corroul. rita.corroul@hotmail.com

Roger Taussig Soares disse...

Oi Helinha!
Esqueci de dizer que nosso país tem lugares que parecem uma Serra Leoa ou uma Somália.
As pessoas que trabalham nesses lugares, protegidas apenas pela convicção de que estão fazendo algo de bom, também recebem minha admiração incondicional.
São todos igualmente profissionais da saúde (só que social) e lutam contra moléstias metastáticas como a ganância dos poderosos.
Precisamos estar todos plenos de compaixão para enfrentar e mudar nossa realidade.

Parabéns pelo seu trabalho!