segunda-feira, 4 de julho de 2011

Enxaqueca Crônica: conhecer para tratar melhor


A enxaqueca é uma das dores de cabeça mais comuns. Acomete mais de 10% da população e é considerada pela Organização Mundial de Saúde como a 19ª doença no ranking de patologias incapacitantes. Até a puberdade, meninos e meninas são igualmente acometidos, mas depois da primeira menstruação, os fatores hormonais aumentam o risco de enxaqueca entre as mulheres que passam a ser as mais afetadas. Uma coisa importante a saber é que a enxaqueca ou migrânea é uma dor que acontece na forma de crises que duram de 4 a 72 horas e que podem se repetir algumas vezes no mês. Todavia, quando a dor passa a ser mais freqüente, o diagnóstico deve ser modificado para Migrânea Crônica e o tratamento segue uma orientação diferente.
É preciso distinguir a migrânea episódica da migrânea crônica. A forma crônica pode ser uma evolução da tipo episódica que foi aumentando em freqüência e diminuindo em intensidade, passando a ser constante e menos incômoda do que as crises fortes e incapacitantes, características da enxaqueca episódica. A transformação da enxaqueca episódica em enxaqueca crônica pode ocorrer por vários motivos, sendo o abuso de medicação analgésica uma das principais causas.
Na primeira classificação de "migrânea crônica" pela International Headache Society(IHS), uma das condições para a realização do diagnóstico era de que o paciente não tivesse história de abuso de medicação. Depois de algum tempo, especialistas observaram que o critério havia ficado muito restritivo e que muitas pessoas não podiam ser diagnosticadas e não se beneficiariam dos tratamentos propostos. Agora o critério ficou mais amplo e inclusivo, pois considera pacientes com mais de 15 dias de dor de cabeça por mês, independente do uso excessivo de medicamentos para enxaqueca.
Vejamos quais são os critérios da IHS para migrânea ou enxaqueca episódica do tipo comum(sem aura):
A – Pelo menos 5 ataques que preenchem os critérios B a D
B – Ataques de dor de cabeça durando de 4-72 horas (sem tratamento ou com tratamento mal sucedido)
C – Dor de cabeça com pelo menos duas das seguintes características:
  1. Localização unilateral
  2. Qualidade pulsátil
  3. Intensidade de dor de moderada a severa
  4. Agravada por atividade física ou causando evitação de atividade
D – Durante a dor de cabeça, pelo menos 1 dos seguintes:
  1. Náusea e/ou vômito
  2. Fotofobia e fonofobia
E – O quadro não pode ser atribuível a outras doenças
Essas são as características principais e necessárias para o diagnóstico de enxaqueca. Vale salientar que se o paciente toma uma medicação analgésica no início da crise ela pode não se desenvolver completamente e não ter todas as peculiaridades mencionadas. O ideal é que o médico obtenha a descrição de um episódio sem tratamento. Quando as crises de enxaqueca ocorrem menos de 1 vez por semana é possível fazer um tratamento voltado para o controle das crises. Porém, quando o número de crises ou, melhor ainda, o número de dias de dor por mês começa a aumentar estará indicado um tratamento do tipo preventivo ou profilático. Existem vários esquemas eficientes para esses casos e a escolha da terapia baseia-se nas particularidades de cada paciente.
Saindo da condição de enxaqueca com crises raras (na qual se dá tratamento só nos episódios) e de enxaqueca com crises freqüentes(na qual se indica tratamento preventivo), chegamos às situações em que a enxaqueca se torna uma companhia quase diária. Nesses casos, o paciente tem dor em mais de metade dos dias e não necessariamente tem o quadro típico de enxaqueca em boa parte do período. A dor pode ser mais leve, do tipo constante e por toda a cabeça, com dias mais fortes intercalados.
Vejamos quais são os critérios revisados pela IHS para migrânea ou enxaqueca crônica:
A – Dor de cabeça por 15 dias por mês ou mais, se estendendo por mais de 3 meses.
B – Ocorre em paciente que teve pelo menos 5 ataques que preencheram os critérios de Migrânea comum
C – Em mais de 8 dias por mês, nos últimos 3 meses, o paciente teve crises típicas de enxaqueca ou tratadas eficientemente por medicamentos tipo triptanos.
D – Não existe abuso de medicação e não é atribuível a outras doenças
Na prática, os grandes especialistas em dores de cabeça consideram como migrânea crônica qualquer cefaléia crônica diária, ou seja, com mais de 15 dias de dor/mês nos últimos 3 meses, tendo ou não história de abuso de medicamentos e que tenham atualmente ou no passado episódios típicos de enxaqueca. O conceito fica mais aberto e inclui pacientes com antecedentes claros de enxaqueca e que atualmente têm dor com muita freqüência.
Para esses pacientes, o tratamento deve ser bem discutido e os recursos terapêuticos mais avançados, utilizados. A combinação de vários medicamentos é freqüente em tais casos e os esquemas para tratamento de crises são escalonados para que o paciente não precise buscar auxílio no pronto-socorro. Recentemente foi aprovado o uso da toxina onabotulínica tpo A (Botox, Dysport) para tratamento da migrânea crônica. Em alguns pacientes proporciona um grande alívio, em outros se soma ao arsenal terapêutico para melhorar a eficácia geral.
O sucesso do tratamento da enxaqueca depende fundamentalmente de um bom diagnóstico e do uso proficiente dos recursos de tratamento disponíveis. O relacionamento terapêutico adequado entre médico e paciente também é imprescindível. Considerando que uma em cada duas residências possui alguém com enxaqueca, notamos como é necessário transmitir o conhecimento e promover o bem-estar a todos por meio de métodos cientificamente comprovados.

domingo, 5 de junho de 2011

Pais de adolescentes e a loucura do ensino pré-vestibular

Atendo diariamente a jovens(e seus pais) que chegam ao consultório preocupados com seu desempenho escolar e como conseguirão vencer a concorrência para garantir sua vaga em uma boa faculdade. Parece que estou diante daqueles jogadores de tênis que os pais fazem treinar por várias horas diariamente. Nesse mundo de alta performance, nos esportes ou nos vestibulares, a busca por desempenho aumenta também o risco de lesões e muitos garotos e garotas desenvolvem problemas como estresse, ansiedade e até burnout pelo ritmo de vida adotado. Como lidar com a competição escolar e a necessidade de qualificação para o mercado sem sacrificar a qualidade de vida continua sendo um quebra-cabeça de um milhão de peças.
Os especialistas em educação estão preocupados porque as crianças não são máquinas de aprender para serem treinadas desde pequenas. Na expectativa de adquirir uma vantagem competitiva, meninos e meninas frequentam escolas bilingues mesmo sem ter ascendência familiar estrangeira, participam de workshops de empreendedorismo para jovens, fazem aulas de reforço para sair de A e atingir o nível A+, fazem judô, balé, natação, violão, piano, alemão e, se der tempo, uma atividade voluntária para terem também a vantagem do politicamente correto.
As escolas, por sua vez, não deixam por menos e sobrecarregam os alunos com até 15 disciplinas por ano. É claro que no mundo atual, com a imensa gama de profissões e áreas de conhecimento a serem ensinadas, transmitir o que é relevante por meio de um currículo adequado parece um feito impossível. Soma-se a isso o antiquado método de aulas expositivas empilhadas umas sobre as outras no cérebro do aluno ao final de cada dia.
Acredito que vivemos uma época de impasses em torno da questão educacional. Os pedagogos e professores reconhecem há bastante tempo que aprender não é decorar e repetir. O certo é compreender e estabelecer relações significativas entre os elementos do conhecimento.
Os pesquisadores em educação vêm lutando para que os alunos não sejam vistos como vasos dentro dos quais se pode despejar uma quantidade de conteúdos. Todavia, os métodos de avaliação utilizados em vestibulares e outros exames de qualificação baseiam-se justamente na medição escalar de conteúdos armazenados, como se as pessoas fossem apenas bancos de dados geradores de respostas para provas.
As escolas de vanguarda procuram desenvolver currículos que se desenvolvam verticalmente ao longo dos anos, mas também transversalmente de modo inter e transdisciplinar. Têm sucesso em estimular os alunos por meio de projetos que integram várias disciplinas ou ensinar na forma de módulos signfiicativos.
O problema é que quando chega perto do vestibular, a concorrência entre estabelecimentos de ensino dita as normas do jogo e o objetivo não é apenas decorar as matérias, mas sim responder corretamente as perguntas de múltipla escolha. Por isso tantos macetes de cursinhos e as decorebas de questões dos vestibulares passados. Aulas de manhã e de tarde, estudo à noite, simulados e revisões aos sábados e domingos.
A função da escola deveria ser desenvolver habilidades e competências intelectuais que levem, em última instância, à autonomia no processo do aprendizado e uso racional dos conteúdos. O aluno que sai do ensino médio deve ter capacidade línguistica para ler e interpretar textos, escrever corretamente e argumentar com lucidez. Do mesmo modo, precisa ter desenvolvido o raciocínio lógico no sentido da resolução de problemas inteiramente novos e de questões referentes a conteúdos aprendidos.
Vejo isso na minha prática profissional. Tenho que ser capaz de estudar e aprender sozinho sobre novas doenças e atualizar as formas de tratar aquelas que já conheço. Para tanto, devo saber selecionar uma bibliografia, compreender os textos e extrair o que é relevante. Isso acontece em outras áreas nas quais se pode adquirir conhecimento diretamente de materiais teóricas, ao contrário dos ofícios em que a habilidade de um é passada para o outro na prática.
Os professores e pedagogos sabem de tudo isso, mas colocar em prática diante da pressão da competição no mercado não é fácil.
Além dessas habilidades e competências, cabe à escola também apresentar e introduzir o aluno aos vários campos do saber nas áreas da matemática, das ciências naturais, das ciências humanas, das artes, das técnicas e das línguas para que ele possa escolher que profissão seguir e ainda aprender a se relacionar com as comunidades que se utilizam desses saberes em seus fazeres diários.
É claro que com o corpo de conhecimento humano crescendo exponencialmente nas últimas décadas por meio de pesquisas e produção intelectual, torna-se uma tarefa hercúlea apresentar mesmo as bases mais simples do conhecimento global na escola. Mesmo assim, utilizando uma escala adequada, é possível mapear e instrumentalizar os jovens no sentido de poderem passear por esses campos do saber, de acordo com seus interesses ou necessidades.
O cérebro humano é capaz de armazenar uma quantidade incrível de informações, especialmente nas primeiras duas ou três décadas de vida. Portanto, considero natural que os alunos sejam expostos a uma grande quantidade de conteúdos. Mas é importante que saibam fazer relações e que sejam capazes de reconstruir o conhecimento com suas próprias linguagens para tomarem posse efetiva do mesmo.
São as informações soltas, sem contextualização, que se perdem por falta de ancoramento com o todo, depois de realizadas as provas e vestibulares. Esses conteúdos deveriam ser revistos e atualizados, ganhando maior significancia, consistência e coerência. Quanto mais bem amarrado e entendido em seus fundamentos for um conhecimento, maior a chance de que seja levado e utilizado no resto da vida.
Do ponto de vista neurológico, essa amarração tem a ver com a construção do que denominamos "memória semântica" na qual o conteúdos se agregam por proximidade de significado e não por categorias. Por exemplo: no nosso cérebro, a memória de um gato está mais perto da memória de um cachorro do que da memória de um lince. Embora o lince e o gato sejam ambos felinos e muito próximos do ponto de vista biológico, na nossa vida diária a relação entre o gato e o cachorro é muito mais estreita por motivos óbvios. No caso, uma memória se amarra à outra e ambas se mantêm fixas.
É claro que muitas coisas que aprendemos na escola não serão utilizadas na vida profissional. Não dá para ser diferente. Afinal, ninguém será ao mesmo tempo biólogo, químico, astrofísico, médico, historiador, geógrafo e assim por diante.
Ao entrar na faculdade optamos por uma das grandes áreas do saber e abdicamos das outras que não nos atraem com tanta intensidade. Todavia, os conteúdos bem assimilados não serão perdidos, mesmo que não sejam utilizados na sua forma original. O que acontece é que o cérebro forma redes neurais que permanecem e suas vias podem ser utilizadas para a resolução de outros problemas por meio de analogias.
Normalmente, quando estamos diante de um problema tentamos resolvê-lo utilizando uma forma exemplar de resolução que já usamos no passado. Uma boa forma de resolução de um problema é denominada paradigma e pode ser aplicada em outras situações. Uma vez aprendido um paradigma, ele poderá ser aplicado em outras situações e em outras áreas do conhecimento e testado em sua eficácia. Somente quando esgotamos as possibilidades de um paradigma é que passamos a outro.
Dessa maneira, nossos cérebros aprendem os conhecimentos relativos a um problema específico e também a maneira de resolver esse problema. Mesmo que no futuro aqueles conhecimentos não sejam mais usados, o modo de resolução de problema fica armazenado e pode ser aplicado em situações novas. Por isso, mesmo que esqueçamos muitas coisas que estudamos na escola, levamos como herança o relacionamento que tivemos com aqueles conteúdos, as formas de abordagem, os métodos de pesquisa e tudo o mais que nos servirá no momento oportuno.
O problema está posto, mas se encontra muito longe de uma solução que consiga harmonizar o desafio de aprender e se preparar para a vida com o direito a uma vida plena com bem-estar social, psicológico e espiritual. Não tenho uma fórmula pronta. Penso que devemos no mínimo saber equilibrar trabalho/estudo com lazer e amenizar a cobrança sobre os filhos com momentos de afeto incondicional. Queremos o melhor para nossas crianças e ajudá-los a construir uma vida feliz, compartilhando experiências e enxergando com olhar crítico o sistema é fundamental para aperfeiçoar nosso modo de ser.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O que fazer quando não há mais nada a fazer

A Neurologia tem evoluído de modo espantoso nas últimas décadas. Entendemos melhor as funções cerebrais, desde o ponto de vista das redes neurais que explicam nossas capacidades cognitivas até o conhecimento dos mecanismos moleculares da fisiologia e da doença que permite o desenho de novos tratamentos ultra-específicos.
Os medicamentos com anticorpos monoclonais representam uma verdadeira revolução e os tratamentos genéticos se tornam cada vez mais próximos da realidade clínica. Aumentamos a expecativa de vida e melhoramos a qualidade.
É claro que existem limites a serem ultrapassados e o objetivo da medicina não é evitar a morte. Além do controle de doenças, procura-se também atender ao paciente enquanto ser humano que necessita de cuidados.
Desde o início do tratamento nos preocupamos com o bem-estar da pessoa e, em algumas situações, todos os nossos esforços são direcionados ao alívio do sofrimento, já que não temos como impedir completamente a evolução de certas doenças.
Quando as pessoas ficam doentes, seus familiares também sofrem e muitas vezes a sensação de desesperança ou impotência toma conta. Também os médicos podem se sentir perdidos, sem saber o que fazer diante de um paciente que não responde às medicações.
Na neurologia estamos acostumados a lidar com doenças sem tratamento curativo e desenvolvemos métodos para abordar esses casos. Para falar disso, fiz um texto entitulado "O que fazer quando não há mais nada a fazer". Serve principalmente para a questão do atendimento profissional à saúde, mas com um pouco de reflexão é possível extrair os principios e os utilizar em outras situações da vida.
Quero convidá-los a lerem o artigo e emitir suas opiniões. Basta seguir o link abaixo.

 O QUE FAZER QUANDO NÃO HÁ MAIS NADA A FAZER

Um abraço,


Roger Soares