quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Olhares perdidos

Conforme a idade avança, todos nós experimentamos o declínio natural das funções orgânicas, tanto físicas como mentais. O processo de senescência é fisiológico, do mesmo modo que a infância ou a adolescência. Essas fases contêm particularidades que devem ser vistas, compreendidas e valorizadas de acordo com seu contexto. Algumas patologias, todavia, são dependentes da idade e no caso da Doença de Alzheimer quanto mais velho, maior a chance de um indivíduo manifestar o problema. Distinguindo a senescência como processo natural do quadro patológico de senilidade, podemos oferecer os tratamentos e cuidados adequados a cada pessoa, preservando a dignidade e a qualidade de vida.
A doença de Alzheimer atinge aproximadamente 1,5% da população norte-americana, o que equivale a cerca de 4 milhões de pessoas acometidas pela doença. No Brasil, as estimativas sugerem algo em torno de 1,5 milhão de pacientes com o mal. Uma das características fundamentais é o comprometimento dito escalonado da memória.
Em primeiro lugar fica alterada a capacidade de retenção para fatos recentes, junto com uma dificuldade de atenção e concentração. Posteriormente, as memórias antigas também são corrompidas de tal modo ainda que vão se perdendo das mais novas (em anos) para as mais remotas. A tradução clínica é uma tendência do idoso viver no passado e contar, repetidas vezes, estórias antigas da sua juventude. Além da dismnésia, outros sintomas cognitivos podem aparecer, como a dificuldade para lembrar o nome das coisas, diminuição da fluência verbal, incapacidade para reconhecer rostos conhecidos, perdas das habilidades de cálculos etc. A falta de percepção da própria condição de doença é chamada anosognosia e está presente em muitos pacientes.
Com o avançar da doença, as deficiências vão progredindo e aquilo que era notado apenas pelos familiares, passa a ser percebido por qualquer um que tenha contato com o idoso. Suas capacidades mentais estão visivelmente prejudicadas. Todavia, as interações afetivas ainda são possíveis e mudanças de temperamento ou humor não são raras. Alguns podem se tornar bastante sociáveis, interagindo com desconhecidos sem restrições. Outros podem assumir uma postura mais defensiva e evitar o contato social.
Aqui já surgem alguns mitos que podem ser bastante negativos. As mudanças de comportamento e afeto são interpretadas por muitos leigos como uma desrepressão de conteúdos psicológicos que ficaram recalcados durante toda a vida. Esse tipo de visão, além de não ser embasada em fatos científicos, pode ser a origem de diversos problemas e preconceitos. Basta imaginar uma senhora que sempre foi muito gentil e educada que desenvolva, em decorrência das lesões cerebrais do Alzheimer, um linguajar chulo, agressividade ou comportamento sexual não inibido. Se acreditarmos na hipótese da desrepressão do inconsciente, diremos que na verdade a paciente sempre foi uma despudorada, obscena e dissimulada, pois tinha compostura antes de ficar doente.
Claro que não podemos aceitar tal interpretação. Primeiro porque as atitudes de uma vida inteira são muito mais representativas da verdade de uma pessoa do que uma situação momentânea relacionada a uma doença. Depois, porque o comprometimento cerebral do Alzheimer não é homogêneo por todo sistema nervoso, podendo afetar certos circuitos inicialmente mais que outros, causando os comportamentos bizarros. Além disso, não acontece da mesma maneira com todas as pessoas. Por fim, as lesões neuronais não obedecem os planos do modelo de personalidade freudiana, ou seja, não comprometem as camadas mais superficiais do consciente, depois o subconsciente e por fim o inconsciente; do mesmo modo que não "ataca" preferencialmente o superego, liberando o id.
O resumo disso é que ao encararmos um paciente com Alzheimer que desenvolve um distúrbio de comportamento, devemos enxergar antes de tudo uma pessoa doente cujos atos intencionais e volitivos se encontram solapados desde a sua construção cognitiva básica. Ela não pode ser responsabilizada por suas ações, nem desacreditada em sua história de vida.
Raciocínio semelhante precisa ser desenvolvido também no que diz respeito às relações interpessoais do paciente com demência. Às vezes o paciente não reconhece os filhos, ou chama a figura de mulher que está atualmente mais próxima de "mãe", ou então parece ter predileção por alguns filhos em detrimento dos outros. Tudo isso gera ansiedade nos familiares, especialmente os filhos que podem se sentir excluídos do círculo de afeto do genitor. Perguntam-se: "porque ela se lembra do nome do João, mas não do meu?"
Novamente, essas não são escolhas pessoais do paciente, nem significam que exista algo mal resolvido com um determinado familiar. As relações dos portadores da doença, a partir de determinado estágio, são construídas por meio de associações inextricáveis e irracionais. Dependem de fragmentos de memória desconexos que se reagrupam de modo inconsequente. Não dá para saber nem como, nem porque, mas apenas entender que não há culpa em ninguém.
Para encerrar essas considerações sobre o mal de Alzheimer, gostaria de lembrar aquilo que costumo chamar de "fantasia do cativeiro". Com a progressão da doença, o paciente perde as funções mentais superiores e também as capacidades motoras. Fica então limitado a uma poltrona ou ao leito e não contactua mais verbalmente. O ciclo sono-vigília se desconstrói e pode passar muito tempo sonolento e quando acorda tem pouca ou nenhuma reação psicologicamente compreensível. Nesse ponto, alguns familiares podem desenvolver a fantasia do cativeiro que é imaginar que aquela pessoa que eles sempre conheceram está lá dentro daquele doente, aprisionada em algum lugar tentando se comunicar com o exterior de algum modo.
Partindo desse pressuposto, os familiares "constróem" uma nova linguagem com a qual conseguem compreender o que está "realmente" passando pela mente do idoso demenciado. Claro que certas habilidades de comunicação permanecem e é possível reconhecer que o paciente sente dor na barriga quando geme, do mesmo modo como reconhecemos isso nos bebês. Mas uma linguagem rudimentar só pode transmitir mensagens rudimentares. Por mais que possa ser dolorido se render aos fatos, não podemos imaginar que o olhar perdido de um paciente, já sem contato verbal, significa que "esteja com saudade do tempo em que morou na Espanha".
Sei que muitos parentes relutarão em se desfazer dessa fantasia. Mas nosso propósito é o melhor possível.
Na verdade, junto com a idéia do aprisionamento da mente no corpo deteriorado, surge a percepção de um sofrimento que não existe em princípio e quem sofre mais são os familiares que acabam por imaginar como seria se eles mesmos estivessem aprisionados. Esse sofrimento psicológico ou filosófico do aprisionamento nos limites do corpo, existente até em quem tem saúde e está de posse de suas faculdades mentais, ele não existe no paciente de Alzheimer que é inconsciente de sua condição desde as fases iniciais da doença.
Mas e quanto àqueles que acreditam na alma ou no espírito que sobrevive ao corpo? Não é justo para eles pensarem dessa maneira?
Na minha opinião, baseado em teorias filosóficas de mente, penso que a mente existe apenas incorporada e que a visão dualista cartesiana ou espiritualista carece de sustentação lógica. Temos uma sensação de uma mente separada a partir da experiência do "self", do sujeito que existe dentro de nós e que enxerga os objetos que são "não-self", incluindo aí, por questões culturais, o próprio corpo. A experiência dessa mente abstrata, incorpórea e independente só é possível pelos mecanismos cerebrais que temos à nossa disposição fisicamente.
Isso não quer dizer que não possa haver uma mente imaterial ou espírito, mas apenas que o que entendemos como mente imaterial ou espírito são construções que passam pelo filtro da nossa constituição orgânica cerebral e dependem dela.
Desse modo, não existe a mente imaterial sem o cérebro material, ao menos no plano físico que não prescinde dos veículos físicos da manifestação.
Caso "exista" uma mente, ou alma, ou espírito além do corpo, uma vez perdido o corpo eles serão outra coisa que somos incapazes de descrever em palavras porque existem em outro nível de realidade. Lembremos de Sócrates que se recusou a fugir da prisão, afirmando que não havia o que temer já que uma cadeia não seria capaz de prender seu espírito.
Por esse motivo, ao invés de imaginar que a mente lúcida de um paciente esteja aprisionada em um corpo doente, prefiro pensar que seus olhares perdidos são sinal de que seu espírito já está livre.