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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Efeitos do tabaco e da maconha no cérebro

Em termos da medicina, drogas como o tabaco e a maconha são prejudiciais ou não ao cérebro? @moisesbasiliol
O tabaco e a maconha podem ser ambos nocivos ao funcionamento do cérebro, mas por mecanismos diferentes um do outro.
A maconha (Cannabis sativa) tem como principal princípio ativo o Tetra-Hidrocanabinol - o THC. Existem receptores nos neurônios espalhados pelo sistema nervoso central, específicos para esse composto e para os demais endocanabinóides. Os receptores tipo CB1 promovem a liberação de GABA(acido gama-aminobutírico) nas áreas da memória como hipocampo, amigdala e córtex cerebral. O resultado é uma lentificação do pensamento e comprometimento da memória. Crianças expostas à droga ainda no útero da mãe têm menor desenvolvimento intelectual em termos de atenção, linguagem e aprendizado.
A "química" da maconha permanece por semanas no corpo, mesmo depois da interrupção do uso.
Já o tabaco tende a agir mais lentamente, por via indireta. Como é responsável por doenças nos vasos sanguíneos de pequeno calibre, seu consumo por décadas pode comprometer a irrigação cerebral, causando microinfartos ou predispondo a grandes acidentes vasculares cerebrais.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Déficit de Atenção e Hiperatividade - pergunta do(a) leitor(a)

Gostaria de saber como o TDAH é diagnosticado pelo neurologista. Obrigada!!
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma patologia que fica na intersecção entre a neurologia, a neuropediatria e a psiquiatria.
As meninas tendem a apresentar um comportamento mais desatento, enquanto os meninos manifestam mais sintomas de hiperatividade. No primeiro caso, são crianças doces, gentis, mas com baixo desempenho escolar porque parecem viver no mundo da lua. Não se dedicam às tarefas e podem ser um pouco teimosos. Nos casos de hiperatividade, teremos os buscadores de emoções que sobem em telhado, brincam com fogo, atiçam o cachorro do vizinho, mexem com objetos perigosos como facas etc; e há também os buscadores de novidades que não permanecem mais do que poucos minutos em cada atividade, cansando-se rapidamente e procurando algo novo. Claro que essas manifestações apresentam-se em variadas proporções em cada pessoa e muitas crianças levam os sintomas para a vida adulta.
Há escalas que podem ser aplicadas pelo neurologista diretamente no paciente e outras destinadas aos familiares que ajudam na detecção dos sinais que caracterizam a síndrome.
Como é uma doença "da moda" temos que ficar atentos com o excesso de diagnósticos, seja pelos pacientes e familiares ou pelos médicos. Embora saibamos que há uma diminuição na atividade das projeções dopaminérgicas para os lobos frontais cerebrais, ainda há muito o que descobrir sobre a doença. No momento, temos facilidade em detectar os casos extremos, mas o limite entre o normal e o patológico está longe de ser bem compreendido.
As medicações usadas podem causar dependência química e psíquica, por isso devem ser prescrita de modo criterioso. Já a falta de tratamento pode diminuir as chances da criança concluir os estudos e até estar mais predisposta a drogadição.
Estamos à disposição dos interessados em saber mais sobre a doença.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Doença, dor e sofrimento

Eu tinha 16 anos quando entrei na faculdade de medicina. O ano era 1985 e por causa daquele vestibular em Londrina acabei tendo que conviver diuturnamente com o sofrimento, a doença e a morte desde então.
Não há nada mais acachapante para quem tem alguma inclinação para a espiritualidade ou para uma reflexão existencial do que esse contato íntimo com as vicissitudes humanas. Somente talvez a convivência com flagelos maiores, que ultrapassam o âmbito do indivíduo e sua família, pode ser mais gritante do que a vida dentro de um hospital. Estou pensando nas guerras, na fome que assola as populações africanas, nos campos de refugiados, nos guetos do nazismo e em coisas odiosas como o apartheid. Para essas não tenho grandeza de espírito necessária. Admiro quem dedica sua vida ao combate direto, in loco, a esses males.
De qualquer modo, a percepção imediata do sofrimento dos outros funciona como um balde de água fria sobre qualquer sonho de mundo feliz que um adolescente, como eu era ao percorrer pela primeira vez os corredores da sala de anatomia, possa alimentar. Apesar disso, entre optar por uma atitude fria e cínica diante da dor ou procurar desenvolver algum nível de contato com o sujeito que sofre; acabei escolhendo o segundo caminho.
Depois de tanto tempo debruçado sobre a literatura médica, conclui que por mais que estude sempre fica algo faltando. No máximo, quando alcanço o estado da arte em alguma moléstia específica, o que acontece é que compartilho a ignorância dos maiores cientistas do mundo. No quesito resolução de sofrimento, a medicina deixa ainda muito a desejar.
Por incrível que pareça, também não há resposta satisfatória na religião. Criam-se justificativas, promessas e apoio espiritual por meio de crenças em compensações posteriores, mas o sofrimento do aqui e agora permanece. Se houvesse um exorcismo realmente eficaz, por padre, pastor ou ministro - algo que realmente extirpasse a doença, os hospitais estariam com seus dias contados. Do mesmo modo, não há atos mágicos, manipulação de Chi ou meditação que repare algo concreto como um fígado cirrótico. Se é falta de merecimento, havemos de perguntar o que merecem então os doentes.
Ciência e religião podem nos ensinar a encontrar saúde no corpo, na mente e no espírito, mas apenas ANTES da patologia se apresentar. Certamente há curas milagrosas reinvidicadas pelas duas artes, mas são assim, milagres em condição de exceção, como são todos os milagres.
No final das contas, fazendo tudo ao alcance dos conhecimentos disponíveis oriundos de qualquer lado, o que sobra diante de nós é a dor e o sofrimento do ser humano vivo e físico, como nós mesmos. E para isso só há um remédio, aquele que está justamente no plano humano da existência. Para esse sofrimento, a cura é a compaixão, a solidariedade, a empatia possível apenas pelo contato caloroso de alguém que se identifique realmente com o outro.
É verdade que os médicos carregam sobre os ombros o peso da responsabilidade do diagnóstico correto, da prescrição inequívoca e da cirurgia precisa. Até mesmo nos cabe a função de dizer que chegou a hora de parar e deixar a vida atingir seu fim irrevogável. Mas penso que o médico(incluindo a mim mesmo) ainda está distante do nível de humanidade necessário para o tratamento do sofrimento. Vejo, por exemplo, que não teria o desapego de enfermeiras ou fisioterapeutas que lidam diariamente com as excreções normais e patológicas, dando banho, trocando ou aspirando os pacientes.
A doença é, certamente, um negócio para os profissionais da saúde, mas alguns acrescentam de si a compaixão que entregam graciosamente e então demonstram seu valor como pessoas. São poucos, mesmo porque tal dedicação é dura, dolorosa em si e até incompatível com a luta pela sobrevivência e com a pressa, sua filha dileta.
A espiritualidade e a inquisição interior dos motivos da vida e seus percalços são suportes fundamentais para organizarmos uma postura própria diante dos problemas. O conhecimento de tecnologias científicas e espirituais são ferramentas a serem adquiridas para o trabalho. Uma vez feito isso, é hora de partir para o campo real da batalha diária e procurar, sinceramente, fazer o melhor para o outro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Síndrome de Burnout: a nova face do esgotamento

Você é uma pessoa empreendedora, dinâmica, cheia de iniciativa e gosta do que faz. Seu empenho se reflete em reconhecimento dos colegas de trabalho que sempre confiam em você para resolver os mais diversos problemas. Sua dedicação é utilizada como modelo exemplar pelo chefe que lhe garante, reiteradamente, que seu futuro será brilhante. Tudo vai bem, até que algo desanda e parece lhe tirar da rota. Atrasos, esquecimento de compromissos, perda do vigor mental e físico, cansaço contínuo, dificuldade em atingir as metas, sensação de uma barreira intransponível sobre si, problemas de relacionamento, gastrite, insônia e um azar generalizado. Você pensa: "Será macumba?!" Pode ser, mas o mais provável é que você tenha passado dos seus próprios limites e se encontra em estado de esgotamento, atualmente conhecido como "síndrome de burnout".

A vida profissional exige muito mais do que o cumprimento de prazos e execução impecável de tarefas. Na realidade, para atingir um desempenho alto lançamos mãos de habilidades que se desenvolvem em um plano mais sutil, talvez energético, se quisermos usar esse nome. Além do conhecimento técnico de que dispomos e do tempo utilizado de fato para a realização de uma atividade, movimentamos nossa energia de várias maneiras. Gastamos energia para criar e manter laços de trabalho e convivência, controlar os horários de sono e vigília, para equacionar as demandas da vida social/familiar e profissional.


Enquanto conseguimos dar conta de tudo isso, o resultado é de sucesso nos empreendimentos. Mas não é infrequente que quanto maior o "sucesso" maior o número de atribuições que são incorporadas ao trabalho e maior a energia gasta para mantê-las. Chega um determinado momento em que nosso gasto energético é maior que nossa capacidade de reposição das nossas forças. Com um balanço negativo de vitalidade, a consequência é o estresse crônico e, eventualmente, o colapso.


Como as capacidades de renovação e recuperação de energia são variadas entre as pessoas, o mesmo acontecendo com a resiliência que é a capacidade de resistir às intempéries, cada um terá um ponto diferente de virada para uma situação de desequilíbrio.


É importante ficar atento aos sintomas que se instalam progressivamente. Sensação de cansaço extremo à noite, sensação de que o sono não foi suficientemente reparador quando acorda pela manhã são sintomas comuns. Diminuição do apetite sexual, ansiedade e tendência a buscar alimentos mais calóricos. Indisposição para se divertir, preferindo ficar em casa do que passear nos finais de semana já é sinal de anedonia e denota um estágio mais avançado. Queda do rendimento mental, com perda de concentração e dificuldade de atenção e memória são sintomas de esgotamento, mas a falta de criatividade aparece ainda antes disso. As habilidades sociais são comprometidas, resultando em dificuldade de trabalhar em grupo ou cooperar em tarefas, indisposição geral associada a irritabilidade e impaciência com os colegas. O indivíduo se torna mais chato, introvertido, mal-humorado, agressivo, intolerante, sarcástico, encontra defeito em tudo e não consegue se sentir feliz pelos outros.


Essa constelação de sintomas tende a se agravar à medida que a pessoa começa a se sentir frustrada e deixa de fazer outras atividades sociais. A rotina mental é uma das causas da síndrome de burnout, talvez mais importante do que as situações nas quais existem altas exigências. Tal fato se agrava quando a pessoa vai deixando de fazer outras coisas que são diferentes do trabalho, por falta de disposição. O azar generalizado é apenas a consequência da perda das habilidades não-verbais e por transmitir, o tempo todo, uma mensagem silenciosa negativa para quem está à sua volta. Os colegas, clientes, funcionários, familiares percebem inconscientemente e reagem.


Como evitar tudo isso? Evidentemente, nenhum suplemento vitamínico ou booster mental resolve a situação. Do mesmo modo, os anti-depressivos e ansiolíticos apenas amenizam alguns sintomas. Happy-hours, bebida e outros meios de desconectar não são suficientes e podem trazer mais problemas.


É preciso fazer um bom diagnóstico do quadro geral e identificar como está gastando sua energia, seja nas horas trabalhadas ou nas habilidades não-explícitas. É fundamental observar se destina tempo suficiente para recuperar sua vitalidade. Nesse ponto existem sutilezas importantes. Uma delas é que o simples repouso pode recuperar parcialmente o corpo, mas não a mente. Para descansar o cérebro o importante é desconectá-lo do estado de rotina em que se encontra.


Então, pode-se fazer um trabalho voluntário ou ingressar em atividades espirituais, ou ainda aprender a tocar um instrumento, fazer esportes radicais como trekking, 4x4, arborismo, começar uma nova faculdade. Fazer várias coisas diferentes tira a mente da posição de ficar ciclando sempre no mesmo lugar, amplia a criatividade e nos permite uma visão mais abrangente.


Do ponto de vista físico, uma dieta mais saudável, perda de peso, atividade física regular são necessários para dar resistência e aumentar a energia e vitalidade geral. Boas horas de sono são indispensáveis, e isso em termos de quantidade e qualidade de descanso.


Por fim, vale a pena fazer uma análise da própria vida e ver se não está focalizando demais suas energias no trabalho como modo de evitar lidar com as outras áreas que talvez não estejam tão boas. Procurar um equilíbrio entre os campos espiritual, intelectual, afetivo, físico, sexual e social é fundamental para ter felicidade e qualidade de vida.


Com tudo isso posto em perspectiva, somos capazes de recuperar a felicidade, a alegria de viver e recuperar a boa sorte. A síndrome de burnout é, enfim, uma decorrência da falta de atenção consigo mesmo que pode e deve ser tratada desde suas causas.

segunda-feira, 30 de março de 2009

O que você faz com seu talento?

Se você tem um talento, aparecerá alguém para explorá-lo. É isso o que nos ensina a sabedoria chinesa taoista e não há como discutir o grau de verdade dessa afirmação. Basta observar os inúmeros exemplos publicamente visíveis como os esportistas ou encarar os fatos do nosso cotidiano. Somos explorados por nosso chefe, por nossos sócios, por nossos empregados e por aí vai. É preciso encontrar um meio para amenizar a situação e talvez a mesma sabedoria que nos alerta, proponha também a solução.
Certamente há aqueles que possuem talentos únicos e que também conseguem obter as recompensas do emprego de suas aptidões. Mas a maioria permanece explorada ou porque não tem consciência de que tem algo especial a oferecer ou porque não percebe que está sendo submetida. Dessa forma, vemos muitos grandes líderes que nada seriam sem a base e o apoio daqueles que efetivamente têm talentos e que trabalham.
Conheci vários casos desses, mas um deles foi bastante emblemático. Trata-se de um famoso cirurgião cuja maior habilidade era a de fazer marketing propalando sua perícia enquanto, na verdade, seus assistentes realmente capazes permaneciam na obscuridade. O cirurgião não tinha o talento que exibia e teve ainda a felicidade de encontrar-se com alguém extremamente hábil mas que não se importava com o reconhecimento público nem notava que produzia fortunas sem ter direito a elas.
Parece que há pessoas cujo único talento é explorar outros talentos. Aparecem sempre bonitos na fotografia, bem arrumados, com trejeitos elegantes e sabem bajular os ricos e poderosos. Aliás, essa é outra característica dessas pessoas, os interesses lhes movem o humor e desdenham consistentemente dos subalternos. Abramos os olhos para esses, pois caso contrário permitiremos que ganhem notoriedade e extendam seus domínios para explorar cada vez mais pessoas.
Voltando à China, fama, riqueza e poder são os motores e as metas de tais pessoas, exatamente os três venenos do ser humano, para a cultura antiga do Extremo Oriente hoje também já sucumbido aos valores individualistas da sociedade contemporânea.
A solução descoberta pelos sábios taoistas foi a da não-interferência, o não-lucro, o anonimato, a simplicidade. Exatamente o contrário da solução ocidental que seria a de encontrar os meios para se desvencilhar dos usurpadores e aprender a lucrar por si mesmo.
O dilema moral/espiritual dos que se empenham no bem é que para transformar talento em lucro, precisamos gastar nossa energia vital que poderia ser melhor utilizada na realização daquele mesmo talento em benefício do mundo. Por isso a opção pela pobreza ou pela vida modesta daqueles que trilham os caminhos superiores. É o caminho dos bodhisattvas, dos cristãos antigos e até de profetas modernos como Mahatma Gandhi. De fato, não há como servir a Deus e a Mamon (money) ao mesmo tempo.
Cabe aqui ressalvar que quem tem algum talento não deve ficar enfatuado por isso. Ao contrário, a atitude de humildade é essencial para a conservação e aplicação de seus dons. Lembrando de Nietzsche, façamos como seu Zaratustra que ensinava a não dar um nome para sua virtude, para evitar que se estabeleçam termos de comparação com os outros, o que acarreta sua destruição. Apenas vivamos conforme nossa virtude.
Seguindo, portanto, os conselhos da sabedoria antiga, dizemos aos possuidores de talentos e virtudes: "façam de suas aptidões uma doação em benefício do mundo". Essa é a única maneira de não cair no engodo do lucro, nem ser explorado por quem já é vassalo do capital. É isso mesmo! Dê de graça, assim ninguém poderá lhe roubar. Conserve-se vazio e aberto, ofereça o que tem de melhor sem esperar recompensa ou reconhecimento. Não serão os Céus que lhe trarão o pagamento, mas a própria liberdade decorrente de sua atitude será o motivo da sua felicidade.
Sem esperar nada, jamais sentimos falta de qualquer coisa. Livres dos apegos, estamos abertos para a vida.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Clube da luta made in Brazil


Estava conversando com um garoto de 15 anos, pertencente à classe média e frequentador de uma boa escola particular em São Paulo. Ele me contava de uma "brincadeira" que seu grupo de amigos faz periodicamente. Chama-se brigar sem perder a amizade e consiste em rounds de luta de rua (street fight, como meu orgulhoso interlocutor enunciou) em que os adolescentes se atingem com socos, pontapés, chaves de braço, imobilizações e outros golpes, incluindo o famigerado "murro na cara". Os limites são apenas 2: em caso de sangramento a luta é interrompida e ninguém pode perder a amizade.
Evidentemente, em muitas ocasiões o ringue improvisado ora na casa de um, ora na casa de outro(longe dos pais), fica marcado com respingos de sangue, pedaços de dentes quebrados, algumas lágrimas e o eco das gargalhadas de humilhação coletiva contra os perdedores(o golpe final sobre quem já levou bastante).
Nessa brincadeira "inocente" valem muito os atos de submissão desonrosa, como imobilizar o oponente e dar tapinhas no rosto, temperando com um toque de sadismo o processo inteiro. Só não é permitido atingir as partes baixas, se bem que exista um certa condescendência para quem lança mão dessa tática se estiver apanhando muito.
Depois de tentar esconder meu horror, afinal sou ainda do tempo em que "não se bate na cara de um homem", procurei orientar o rapaz sem parecer muito quadrado. Uma atitude mais intempestiva poderia me valer a pecha de careta ou demodé, isso nos termos apropriados à minha geração.
Ficou, entretanto, a reflexão sobre os motivos desse tipo de comportamento.
Lançando mão dos conhecimentos de biologia, pensei ter encontrado na raiz animal do ser humano a causa do "clube da luta" tupiniquim. Especialmente para os mamíferos predadores, são comuns as brincadeiras de lutas entre adolescentes como forma de treinamento lúdico para a vida real que os aguarda. Também lembrando das matilhas e alcatéias, a eleição dos machos alfa acontece nas demonstrações de força. A preservação desse status social depende de resistir aos constantes desafios dos machos beta, hoje curiosamente em moda entre os humanos por serem mais sensíveis e carinhosos.
Por outro lado, escapando da explicação biológica, imagino se não estamos em um ponto da sociedade no qual o descrédito em relação à racionalidade(herdada como ideal humano das épocas iluministas), como forma de resolução de conflitos tenha chegado a um nível em que alguns homens passam a se sentirem mais homens exatamente quando são mais animais. Outras formas de primitivismo socialmente permitido poderiam ser os esportes - cada vez mais de contato físico - e as torcidas. A pressão da panela parece estar aumentando e se não contamos com a razão para diminuir o fogo que a alimenta, resta-nos soltar a válvula de escape constituída pelo atavismo irracional.
Pensando agora sob a perspectiva cultural, vivemos uma época de crise de identidade na qual a sensação de pertencimento a uma comunidade se dissolve no mar de homogeneidade da modernidade líquida, conforme Zygmunt Baumann. Diante da relativização de valores e da insustentabilidade ética, é preciso ter algo forte, capaz de impor algum relevo sobre um terreno que parece por demais igual, apesar de tanta diversidade. A construção desse ponto de significação densa, marco de orientação e eixo em volta do qual gira o mundo simbólico da identidade, pode ser a adesão a uma religião, como bem explica Mircea Eliade (em O Sagrado e o Profano), e ainda a constituição de grupos com regras muito próprias e rígidas, por mais que corrompidas na questão moral. Ou talvez esses fenômenos desafiem a lógica justamente pela necessidade de desafiá-la como forma de assegurar uma diferença no mundo, base para a constituição de uma comunidade.
O fato é que o ideal do belo, da harmonia e da realização do humano e de sua essência - que poderia até transcender a materialidade - parece cada vez mais distante e utópico. Não é à toa que o modelo de desenvolvimento econômico global cede ao capitalismo selvagem e nos lança na crise mundial que enfrentamos.
Isso é apenas a ponta do iceberg.